“Professor, olha, o que eu vejo de sua pessoa é, que, a sua pessoa coloca pessoas no lugar de pessoas e não só de uma unidade no mundo
Você é a quela pessoa que acorda, quem está dormindo
Você é quem dá insentivo para outras pessoas.
Dê para mim o que queira dar, o mundo vai ser o mesmo para mim
Comtinui a mesma pessoa que é
Boa Sorte.
Vicente
Quero o C e nada maiz”
- José Vicente da Silva
“E se alguém te disser ta errado ou errada.
que não vai ésse na cebola, que não vai ésse em feliz,
que o xis pode ter som de zê, e o cê agá pode ter som de xis,
Acredito que errado é aquele que fala correto e não vive o que diz”.
- Fernando Anitelli –Teatro Mágico
O primeiro texto em destaque é resultado de um processo. O segundo, a última estrofe de uma canção de um grupo artÃstico chamado Teatro Mágico.
Pedi aos estudantes (tento chamá-los assim; demonstram interesse quando lhes é esclarecida a etimologia da palavra aluno) do EJA (Ensino de Jovens e Adultos) de ensino médio da Escola Estadual TarcÃsio Alvarez Lobo (EETAL), no bairro do limão, em São Paulo, que se auto-avaliassem no processo de aprendizagem por eles percorrido ao longo dos quatro meses do segundo semestre de 2006, na disciplina Artes. A maioria (esmagadora) dos estudantes, além da auto-avaliação, avaliaram também o professor e a dinâmica da aula. Não foi preciso pedir-lhes. Algumas dessas avaliações foram registradas, e a que inicia este artigo chamou-me a atenção. É uma fiel transcrição, com eventuais erros ortográficos, do estudante supracitado.
Alguém me diz, Eu bebo, e falo pra minha filha, fica longe disto. Teu pai é burro e ta estudando só agora. Você tem a oportunidade de estudar. Então estuda.
Outro alguém diz, para uma trupe de atores, Olha, é a primeira vez que eu venho ao teatro e eu estou emocionado. Gostaria muito que minha filha estivesse ao meu lado, por que tudo que eu vejo e acho importante eu gosto de dividir com ela. Parabéns a todos vocês.
Um outro alguém me confessa, Eu tenho uma filha de 15 anos, linda. O meu menino quando tinha 13, foi esmagado na Marginal (Tietê). Tive uma filhinha agora, faz 10 meses, que é a coisa mais linda do mundo. Minha mulher foi embora, e a minha filha mais velha eu dificilmente vejo. As coisas vão acontecendo, não dá para impedir.
O que mais me intriga é a capacidade de um ser humano reconhecer o amor e o trabalho no meio da lama. “Esta é uma das significativas vantagens dos seres humanos – a de se terem tornado capazes de irem além de seus condicionantes” ¹. Do lado de lá não sei como funciona, mas posso falar do lado de cá, o professor, que é onde me encontro, e acredito não haver tantas diferenças no plano das sensações.
O que é educação? Senhores professores, quem são? O que ensinam? Para que ensinam o que ensinam? Ensinam? Ensinamos? É preciso re-significar a profissão. Revalorizá-la (na intenção de que um dia teve valor). E se nunca teve, valorizemos agora. Falo em valores totais. Financeiro, ético e construtivo. Quem, ou o que constrói, senão a educação? Comecemos pela formação. A batalha entre formar (moldar) x formar (construir), discutida por Paulo Freire. Um problema semântico, que se ficasse restrito ao campo gramatical seria bem menos sério. Mas é com o que nos deparamos na salas de aulas. Quem são os professores dos futuros professores? Um detalhe primordial. Onde começa o aprendizado dos educadores? Onde e como. Não acredito, realmente, que seja satisfatório. A partir
do momento que dermos atenção a educação, evoluiremos. E essa atenção desmembra-se em muitas ações que são necessárias.
Discurso afinado, vamos a luta. Classes esvaziadas. Muitas classes para os professores não perderem aula. A direção é amiga dos professores. E inimiga da educação. Somos seres que aprendemos por cópia; assim aprendemos a andar e falar. Assim aprenderemos a agir e nos comportar. Os estudantes refletem professores, que refletem coordenação pedagógica, que reflete direção, que reflete polÃtica educacional. Este é o retrato da escola acima citada, que foi onde lecionei durante o ano de 2006.
A boca necessita a fala. Sim, somos espelhinhos, mas eu não quero compartilhar da suja gerência do mundo. Nos aniversários, geralmente, desejamos Paz amor e saúde aos aniversariantes. Troquei o paz por justiça recentemente em meus cumprimentos. É dessa revalorização que falo. Engrandecer a profissão, tornando-a crÃtica.
O que é opressão? Dêem-me três casos de opressão. Teatro do Oprimido. Teatro vira resistência. Vira consciência. Quatro meses é pouco para construir algo, mas é tempo suficiente, como constatado pelas avaliações na maioria das salas, para iniciar essa construção. São bem úteis, as auto-avaliações.
É preciso dizer, contudo, que a transcrição desta avaliação não reflete o processo de todas as turmas (8, no total). E nem poderia. Cada classe teve uma relação diferente comigo, e é preciso primeiramente ter ciência disto. Em algumas tive bastante dificuldade. Não coube a mim, professor, decidir se as aulas seriam agradáveis ou sofrÃveis. Muito menos foi papel dos estudantes definirem questão tão complexa. Foi a soma das duas partes, pois sabemos ser impossÃvel relacionar-se sozinho. Não há aula que não comece em diálogo que não comece morta. O diálogo tem de ser o ponto de partida e o fio condutor dos encontros. Pelos mais variados fatores, o diálogo não se estabeleceu em alguns (poucos) casos. Tempo, desinteresse, cansaço noturno, baixos salários. É preciso estar atento, observar, tentar entender os motivos, e em próximas possibilidades, não pisar nas mesmas madeiras podres.
Houve um caso em que o diálogo estabeleceu-se durante o percurso neste perÃodo. Todos os alunos da escola estavam acostumados a sair na última aula, quando muito assistir aos primeiros quinze minutos dela. Em uma dessas fatÃdicas noites, eu estava em uma sala, o 2º TB, e no momento que entrei na sala, alguns estudantes já estavam querendo sair, outros inclusive chegaram a fazê-lo. Percebi que precisava estabelecer uma aula dinâmica. Comecei a contar então uma estória, que fala sobre conformismo e continuidade; da “não-mudança”. No meio da estória, alguns levantaram e saÃram na minha frente, outros faziam brincadeiras pedindo para acabar logo a estória. Quando a voz deles começou a sufocar a minha, calei-me. Sentei à mesa, peguei o diário, e neste momento eles perceberam e vieram correndo para pegar presença e sair. Fui o último a descer, e quando passei pela entrada da recepção, estavam todos lá esperando, pois foram impedidos de sair antes das 22h45 min. Disse-lhes: “Obrigado por não terem ficado na sala para ficarem aqui embaixo.” Algumas tentativas tÃmidas de questionamento pipocaram, mas eu disse que não estava aberto a diálogo naquele momento; que eles fossem para casa e pensassem sobre o ocorrido. Na semana seguinte eu entrei na sala e nada ocorreu. Deram-me bom noite; o episódio estava passado. Como todas as outras coisas eram passadas por cima, era assim mesmo e não precisava mudar. E a estória que eles não quiseram ouvir falava sobre conformismo! Ao pronunciar que tinha me sentido ofendido, os estudantes questionaram a minha ofensa, e sentiram-se ofendidos por me ofender. Brotou então, como não poderia deixar de ser a razão do nosso conflito, e logo após, o entendimento. Disseram que também sentiam-se ofendidos quando vinham para a escola e não tinham professor na sala de aula, encontravam tudo sujo. E perceberam que a culpa não era minha e que eu estava do lado deles. Recontei a estória sobre conformismo e continuidade. Alguns estranharam, uns se reconheceram e outros adoraram. Estabelecemos um combinado e o tão necessário (e indispensável à prática docente) diálogo.
Há uma feliz coincidência por aqui; o ponto de partida da arte também é o diálogo. O que motiva um artista a produzir? A arte é dialógica, na medida que pretende comunicar, ser vista. Do contrário, afirmo, não é arte. É um princÃpio de, adormecido, esperando seu contato com o público.
Por sermos artistas, temos mais facilidade então para dialogar e construir. E acredito nisso. Para quando se deparar em uma classe de periferia, explicar que futebol não é arte, explicar a diferença entre esporte e música. Aprender a ser tolerante, a reconhecer o erro, e o mais importante, perceber que a sua arte pode ser relevante. Teatro do Oprimido. Algumas coisas seguirão inexplicáveis. Quatro meses é pouco para construir algo, mas é tempo suficiente para iniciar essa construção.
Olha o que eu vejo.
Há descaso para com a educação.
Há vida na periferia.
Vida inteligente burrificada. Vedada. Amordaçada.
Todos somos seres e temos algo a dizer. E isso é o que mais gosto de ter aprendido. Sejamos autônomos. Geremos a autonomia.
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1 - FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia – Saberes necessários à prática educativa.. São Paulo: Paz e Terra, 2006, 33ª edição. Pg.25.